Número 490
Paulo respirou fundo pela décima vez naquela tarde. Suas mãos suadas amassavam o documento de identificação enquanto ele observava o movimento no corredor do prédio para o concurso de Superintendente de Desconexão Sinérgica e Desarticulação de Fluxos de Informação Paradoxais.
"Número 490”, dizia o papel em suas mãos. Faltavam ainda três pessoas. Depois dele, mais dez.
Na noite anterior, não conseguiu dormir. Ficou revirando na cama, olhando as fotos antigas de família no celular: sua avó indígena da etnia Potiguara, seu pai se dizia pardo, sua mãe branca. O espelho do banheiro virou seu confidente insone - passava minutos se olhando, tentando premeditar o que os avaliadores veriam nele.
"E se eu não for pardo o suficiente?" A pergunta martelava em sua cabeça desde que passou no concurso. Paulo trabalhava há cinco anos como professor em uma escola pública da periferia, onde frequentemente ouvia de seus alunos: "Professor, o senhor é moreno que nem eu!”
Mas agora, na fila da banca de heteroidentificação, todas as suas certezas pareciam derreter como gelo no sol do cerrado. Ao seu lado, uma senhora comentava sobre um conhecido que havia passado na mesma banca em um concurso e reprovado em um segundo. "É tipo roleta russa pra pardo”, ela disse, fazendo Paulo engolir seco.
Lembrou-se de quando tinha 15 anos, entrando na Americanas com os amigos. O segurança o seguiu, enquanto ignorava seus colegas mais claros e brancos. Na época, sua mãe tentou minimizar: "Deve ter sido coincidência, filho." Mas ele sabia que não era. Ninguém sabe o que se passa de verdade na cabeça de uma mãe branca.
"Número 490!”
Paulo levantou-se, tremendo levemente. Na pequena sala, três avaliadores o aguardavam com expressões neutras como pedras. Pareciam seres celestiais da neutralidade. Uma mulher de óculos pediu seu número de inscrição e começou a tirar fotos.
"Como o senhor se autodeclara?"
"Pardo", respondeu Paulo, sua voz saindo mais baixa do que pretendia.
"Já sofreu algum tipo de preconceito racial?” De novo essa dignificante pergunta.
Paulo respirou fundo. As memórias vieram como um filme: o segurança da loja, os comentários dos colegas da faculdade sobre seu cabelo de” índio", as piadas sobre sua cor, as vezes em que foi chamado de "moreninho” como se fosse um eufemismo necessário.
"Sim", disse ele, e começou a contar suas dores.
Ao sair da sala, Paulo ainda não sabia o resultado, mas sentiu um peso saindo de seus ombros. Percebeu que, independente da decisão da banca, sua identidade não precisava de validação externa. Era quem era.
Também pensou na estabilidade financeira e no título longo que traria para casa se fosse convocado.
Ele parou na calçada daquele aparelho institucional de paredes tão quadradas e brancas que pareciam não ter sido arquitetado para sua presença. Ele pegou o celular e ligou para sua avó. "Vó, bença? A senhora está bem?.... Sim, ainda estou dando aula.”